Coringa e os astronautas da produtividade

“Tu és a maior esquemeira.”
Eu adoro a série de posts de Joel Spolsky sobre os astronautas da arquitetura (no caso, de software, não de prédios). Sempre me lembram que também há os astronautas da produtividade, aqueles que tentam ser espertos com tamanho afinco que acabam não fazendo nada de prático.
Pensar demais sobre produtividade pode ser algo muito improdutivo. Lutar, buscar a melhor técnica, o aparelho mais eficiente, o método mais rápido, tudo isso às vezes pode gerar mais tensão, procrastinação e confusão.
Ah, então melhor não ter sistema, certo? Não é bem assim.
Se você assistiu ao Batman Cavaleiro das Trevas, deve se lembrar de um discurso do Coringa para o promotor Harvey Dent. O vilão faz uma espécie de apologia do caos: “Vocês são os planejadores, cheios de esquemas. Eu sou o caos, só reajo ao que aparece”.
Sei. Basta ver o assalto do começo do filme para perceber o quanto seus movimentos são friamente calculados. Inclusive é isso que permite que ele seja derrotado sempre.
Caos é uma questão de ponto de vista. Para o Coringa, é representando pelo Batman. Para Gotham, pelo Coringa. Caos é um conceito criado por “esquemeiros” para enquadrar o inesperado em alguma ordem. A vida não se importa com nada disso. Às vezes obedece a padrões, às vezes não. Ela é movimento, criatividade, mutação, forçando sempre readaptações.
Por isso, muitos esquemeiros vivem numa relação tensa e agressiva consigo mesmos. “Preciso ser mais, melhorar, me tornar como fulano ou beltrano”. Vivem num mundo de escassez, medo e expectativa. Por outro lado, muitos caóticos acham que são cool, mas, no fundo, também obedecem às mesmas regras, senão pelo menos as ditadas pelos seus próprios hábitos inconscientes.

Não há como fugir da biodegradabilidade das nossa técnicas de produtividade. Elas vão falhar. E sempre vão surgir melhores.
O que precisamos é criar uma certa confiança em nós mesmos e no ambiente. É uma espécie de burrice estratégica, que libera espaço para praticidade. Você sabe que poderia fazer melhor. Sabe que isso até seria desejável. Mas não é preciso provar nada a ninguém. É a hora da rapidez e da precisão. De água de torneira, não Perrier.
Só assim conseguimos eliminar o excesso de teorias e de acessórios. Partimos para o que é básico e direto. Deixamos de ser agressivos conosco.
É claro que isso nem sempre vai funcionar. E não devemos transformar a teoria em inimiga. Pelo contrário. A idéia é nos livrar do comportamento astronauta, que voa tão alto que acaba num ambiente sem ar.














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