Editoras de livros ou produtoras de conteúdo?

Safari Books, projeto da editora O'Reilly
O que é um livro? Um conjunto de papéis ou as palavras que vêm impressas nele? Aos poucos, estamos deixando de nos importar com isso, à medida entendemos conhecimento como conteúdo. Podemos experimenta-lo de diversas maneiras. Áudio, vídeo, texto de celular, frases curtas, textos complexos e maiores. Tudo pode ser combinado para uma experiência mais completa. Mas sempre dependendo de contextos. Quanto tempo disponível você tem? Onde está? Qual o objetivo de entrar em contato com determinado material? Neste momento, porque no final do dia tudo pode mudar.
Toda essa introdução para falar de um dos serviços mais interessantes que vi surgir no meio editorial recentemente, o Safari Books. O projeto é da O’Reilly, que lança alguns dos mais importantes livros sobre tecnologia do mundo. Trata-se de alguns planos de assinatura. Com US$ 49,99 por mês, o usuário pode acessar centenas de livros do catálogo da O’Reilly, além de cursos em vídeo, rascunhos, tutoriais, capítulos avulsos e prévias, além de ganhar descontos de até 35% nos livros em papel. A versão mais barata (US$ 22,99) libera apenas 10 livros por mês.
Produtoras de conteúdo
Note que o conceito de editora foi ampliado para outro: produtora de conteúdo. Útil, mas ainda um pouco tímido. Eu pagaria facilmente por acesso ilimitado aos bancos de dados de certas editoras. E conteúdo relacionado. Comprou um livro sobre Stanley Kubrick? Por que não obter artigos de jornais, clipes, entrevistas em áudio e filmes inteiros?
O que nos leva a questionar. Para que exatamente recorrer a uma editora, se posso ir diretamente à fonte, o autor? Imagine um site de Franz Kafka, por exemplo. Um que tivesse seus livros em formatos diversos (pdfs, impressos, audiobooks), vendidos com várias licenças de uso (individual, passível de cópia e distribuição limitada), vídeos, rascunhos, primeiras versões de textos, diários ou sabe-se lá o quê. Você não pagaria assinaturas para poder vasculha-lo regularmente? Você não seria um “seguidor” de determinados autores (via Twitter, Friendfeed, RSS etc.)?
Integrando e ordenando
Todo material, é claro, deveria estar relacionado, num bom banco de dados, que pudesse buscar por palavras chave, entre outros critérios. Isso aumentaria muito a produtividade de pesquisadores e acadêmicos. Além de abrir mais possibilidades para os autores. Imagine o que um escritor como Julio Cortázar poderia fazer com nossas ferramentas de compartilhamento digital.
Isso não quer dizer que o escritor – essa entidade semi-divina - precise se transformar num programador. Mas que os agentes e editoras precisam rever seu papel. Podem se tornar verdadeiros gestores de conteúdo para diversas plataformas.
O problema é que dizer algo assim pode ativar automaticamente os preconceitos dos autores. Eles não precisam se tornar publicitários, mas usar os meios disponíveis, em vez de apenas pensar em tradição e propriedade.
Não quero mais, quero melhor
Serviços como o da O’Reilly ajudam a apontar caminhos. Mas ainda estão presos ao modelão “editora”. Ao criar uma relação mais dinâmica com o conhecimento (ou com o entretenimento, como fazem os produtores do seriado Lost), abrimos novas possibilidades de experiência de aprendizado e de assimilação.
No futuro, em vez de precisar vir até sites como este Produtividade Pessoal para ler dicas como “estude melhor, faça anotações” e outras coisas chatas, talvez você possa integrar técnicas antigas de aprendizado - como os “passeios” de Aristóteles, a contemplação (de algumas técnicas asiáticas), a repetição sistemática - com métodos mais técnológicos - como ensino à distância, mp3 players, redes sociais etc.
Novo, velho, estático, dinâmico, papel, bits, são todos conceitos úteis. A não ser quando usados para criar fronteiras restritivas. São válidos se ajudam na integração de conteúdo. Para resumir de um jeito técnico: a portabilidade de dados precisa chegar ao mundo off-line.














Acaba sendo leitura com DRM, não? Você tem um prazo para ler, e depois o conteúdo se dissolve em bits e bytes.
Para literatura mesmo, ainda prefiro ir à livraria, conversar com os funcionários e comprar o produto. Dessa forma, poderei guardá-lo pelo tempo que quiser. E poderei ler novamente sempre que estiver com vontade.
DRM não. Comprou é seu. Faz o que quiser.
A distribuição é que pode ser controlada por planos de assinatura. Se você pagar X reais, pode compartilhar com X pessoas. Lembre-se, estou falando do ponto de vista das editoras, que precisam pagar funcionários e impostos.
Por mim, deveria ser tudo livre.
De qualquer forma, quando você compra um livro, pode empresta-lo. Se copia-lo, a qualidade vai ser pior. Se guardar, depois de um tempo também deteriora. Demora? No digital também.
O que quero dizer, é que, quando pensamos no mundo digital, temos uma visão talvez um pouco romântica demais sobre a permanência e a liberdade de distribuição dos formatos. Há dificuldades em compartilhar objetos de papel também. Muita gente não empresta livros.
Pensando bem, boa parte das pessoas que têm livros digitais ou mp3 não os compartilham. Apenas querem ter a possibilidade de obtê-los de graça. E aí surge a mentalidade leecher.
Deveria ser assim: quer algo? Dê outra coisa em troca. Não precisa ser dinheiro.
Só assim valorizamos o conhecimento. Percebemos que houve um grande trabalho para desenvolvê-lo. Não é algo a ser descartado ou compartilhado apenas para ter a sensação de que “possuímos” algo. De que um dia iremos tirar aquilo da prateleira ou HD.
Mas quando?