O jornalista Alexandre Matias, do Link (O Estado de São Paulo), publicou no seu tradicional blog, Trabalho Sujo, uma interessante reflexão sobre o Orkut e as redes sociais:
(…) O Orkut pode ser importante pra muita gente hoje em dia, mas não mais para mim. Entro duas ou três vezes por semana, basicamente para apagar spams de festas, lojas de informática e pornografia. Virou um navio fantasma, uma avenida engarrafada, um infomercial de seis horas durante a madruga.
Rede social é uma metáfora que não necessariamente tem a ver com a internet. Graças à rede ela ganhou notoriedade como termo, mas, se você prestar atenção, rede social é a rede de relacionamentos que você cria durante a vida. A internet tem um papel crítico ao tornar estas redes mais intensas e firmes, principalmente quando falamos de relacionamentos - profissionais ou pessoais - que extrapolam barreiras geográficas. Mas estes clusters de gente não são necessariamente restritos a alguns sites que se vendem como isso. O MSN é uma rede social (independente da Live, a rede social de facto da Microsoft), a sua lista de contatos no celular é outra, a do Skype mais uma e o fumódromo, o cafezinho, a rádio corredor ou a lanchonete de qualquer empresa também são. Se vamos deixar automatizar estas redes, ossificando relações que funcionam muito mais ao vivo do que online, e se a onda de aceitação das comunidades virtuais - todas têm um auge seguido de uma lenta e vagarosa decadência - é só uma resposta que damos a isso, são questões ainda abertas. Estamos tateando em um novo território - mas pode ser que em menos de dez anos já saibamos essas respostas.
O trecho do Matias me fez pensar no seguinte: durante a história, sempre reinventamos as tecnologias de aproximar gente, do espaço do café até o celular. Mas também criamos novos jeitos de excluir pessoas e idéias do convívio físico e dos sistemas. Isso é um movimento interdependente. Conectar, de alguma forma, significa também segregar, selecionar.
O problema - ou vantagem, depende do ponto de vista - é que alguém sempre escapa dos nossos filtros. Assim, o spam é um forma caricatural de ruído da comunicação. É gerado por máquinas, automático e, até certo ponto, um tanto quanto inofensivo. Causa incômodo, distúrbio, falta de foco, perda de tempo, desvio no sistema. Mas não mortes e guerras, coisa que muita falha de comunicação e diferenças de ideologias ainda causam.
As redes sociais se transformarão em um novo tipo de spam? Para algumas pessoas isso já aconteceu. De qualquer forma, o spam, e as sujeiras no Orkut, nos revelam o bug da linguagem: a sua tendência a criar entropia, confusão. Ou seja: ela vive sempre à beira de criar sua própria autodestruição. Quanto mais aumentamos nossa capacidade de nos comunicar, mais inventamos obstáculos à interação entre pessoas.
É um processo natural. Esse é um dos motivos pelos quais a publicidade vem estudando novos meios de nos fazer prestar atenção em anúncios. Tentam conseguir transformar ruído em informação, o que está cada vez mais difícil, já que estamos muito armados, escaldados de tantos conceitos e idéias, divulgados em ritmo acelerado. Quando os publicitários descobrirem algo que funcione, já estarão, de alguma forma, criando o vírus que vai destruí-lo depois de algum tempo.
Por isso, a atenção vem se tornando um produto cada vez mais caro. Eu não me espantaria se um dia as próprias pessoas comuns passassem a cobrar por ela, em vez de delegarem esse papel aos meios de comunicação. “Quer pagar para que eu veja seu comercial? Não fale com a Globo, converse comigo diretamente, é mais barato e garantido”. Será?
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